<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364</id><updated>2011-04-21T22:13:02.135-03:00</updated><title type='text'>Livro de Cabeceira</title><subtitle type='html'>&lt;center&gt;Aos poucos a idéia de um blog onde eu colocasse as minhas impressões sobre minhas leituras foram ganhando contornos. Quase seis meses depois resolvi que já era a hora de começar.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;i&gt;Tudo no mundo começou com um sim.&lt;/i&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Eu disse sim a essa idéia e não sei onde tudo vai parar.&lt;hr&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Colabore com esse blog enviando um livro - de sua autoria ou não. Saiba como pelo e-mail:&lt;br&gt;&lt;a href="mailto:rubro_zorro@yahoo.com.br?subject=Livros"&gt;rubro_zorro@yahoo.com.br&lt;/a&gt;&lt;/center&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>18</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-107429985522763331</id><published>2004-01-16T22:37:00.000-02:00</published><updated>2004-01-16T22:39:28.420-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://somlivre.globo.com/media/images/products/130/020/020719.jpg"&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Onde Andará Dulce Veiga?&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Caio Fernando Abreu&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Companhia das Letras&lt;/b&gt;, 1990, &lt;b&gt;SP&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Um dos melhores escritores da geração dos anos 90 e que, infelizmente, não pode mais nos brindar com sua fina ironia e aguda percepção, é &lt;b&gt;Caio Fernando Abreu&lt;/b&gt;. Falecido em 1996, em decorrência da AIDS, deixou pequena, mas considerável obra, marcando um estilo novo na literatura contemporânea.&lt;br&gt;&lt;Br&gt;Podemos encarar o personagem principal do livro (que não tem nome - é um EU que pode significar, em realidade, o leitor) como um alter-ego do próprio Abreu. Ambos têm a vida relacionada à uma redação de jornal. O autor, foi cronista no jornal &lt;b&gt;O Estado de São Paulo&lt;/b&gt;; já o personagem, é alguém que vê a possibilidade de conseguir um emprego no jornal &lt;i&gt;Diário da Cidade&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Quanto ao romance, que tem como subtítulo &lt;i&gt;um romance B&lt;/i&gt;, ele faz de São Paulo o cenário ideal para o desenrolar de grande parte da trama, se valendo do lado metropolitano e cosmopolita de uma cidade com seus pequenos labirintos e esconderijos. Isso aponta que o subtítulo não é por mero acaso. O romance ao ter sua trama desenrolada em São Paulo cria um clima de filme B.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Os outros personagem têm um tom exótico, razoavelmente fácil de se encontrar naquela cidade: um diretor de redação que cita poetas em um inglês perfeito; uma colunista social, uma mãe-de-santo, que tem um filho que, dependendo do orixá, vira travesti... Um trecho exemplifica bem o amontoado de personagens arrancados de um submundo: "&lt;i&gt;...passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, duas gêmeas mongolóides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar"&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;E também há a presença desconcertante, quase apocalíptica de... &lt;b&gt;Dulce Veiga&lt;/b&gt;. Ela era uma cantora de prestígio que desapareceu no dia do seu primeiro grande show. A primeira reportagem do Eu é entrevistar justamente a filha de &lt;B&gt;Dulce Veiga&lt;/b&gt;, que está lançando um disco.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A questão fica no ar: Onde andará &lt;b&gt;Dulce Veiga&lt;/b&gt;? O chefe de redação pede que ele escreva uma crônica, que mobiliza todos os fãs que não esqueceram aquela voz. E, sem mais nem menos, o que era apenas para ser uma crônica vira o gancho de uma grande história que mistura acidez, morbidez, ironia, sarcasmo e muita realidade.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;i&gt;Onde Andará Dulce Veiga?&lt;/i&gt; aborda também temas delicados, típicos do mundo ficcional de &lt;b&gt;Caio Fernando Abreu&lt;/b&gt;. Um livro impressionante que, entretanto, deve ser lido apenas por pessoas que estejam preparadas para vivenciá-lo. Quem quiser observar as mudanças de perspectivas, tanto na formação da literatura brasileira contemporânea, quanto no estilo de vida das pessoas da grandes capitais, terá em mãos um grande livro. De uma forma ou de outra, esse livro é uma amostra de que, apesar da valorização do que foi escrito nos anos 60, 70 e 80, tivemos, nos anos 90, excelente criações literárias.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-107429985522763331?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/107429985522763331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/107429985522763331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107429985522763331' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-107335577883339688</id><published>2004-01-06T00:22:00.001-02:00</published><updated>2004-01-12T17:01:48.856-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/70/7/70733g.gif"&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Grande Sertão: Veredas&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;João Guimarães Rosa&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Nova Fronteira&lt;/b&gt;, 2001, &lt;b&gt;RJ&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;No lançamento do livro, &lt;b&gt;João Guimarães Rosa&lt;/b&gt; pedia aos leitores para que não revelassem o final do livro. De certo modo, o autor estava certo ao fazer tal pedido, por vários motivos. Dentre eles, o mais importante é que se soubéssemos o final não dividiríamos as guerras nos confins das Gerais, passo a passo, com &lt;b&gt;Riobaldo&lt;/b&gt;, &lt;i&gt;Tatarana&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Urutú-Branco&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;O outro motivo é, sem dúvida, onde reside toda a magia do livro: trata-se do encanto e fascínio de &lt;b&gt;Riobaldo&lt;/b&gt; pelo garoto de feições finas, mas exímio guerreiro, chamado &lt;b&gt;Reinaldo&lt;/b&gt; (ao longo da narrativa descobrimos que o nome dele é &lt;b&gt;Diadorim&lt;/b&gt;), que, por diversas vezes, vira repulsa, quando um homem do sertão sente que o encanto pelo amigo chega a ser uma... paixão.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Isso mesmo, paixão. A fraternidade vira amor em um sertão onde todos sabem da existência de Deus, mas não duvidam que também haja o contrário, o diverso, isso é, o Diabo. E essas dualidades são duas de várias postas (tanto que, numa análise pouco profunda, podemos apontar o livro baseado nos tradicionais eixos da luta entre bem e mal - e, ainda assim, com final previsível, nos surpreendemos até a última palavra - ao longo das 627 páginas do único romance de &lt;b&gt;Rosa&lt;/b&gt;, que não possui divisão por capítulos, mas é formada por várias histórias, como se fossem as memórias do narrador.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Uma história das representativas é a do julgamento de &lt;b&gt;Zé Bebelo&lt;/b&gt; que, condenado, faz exigências para aceitar a punição de &lt;b&gt;Joca Ramiro&lt;/b&gt;; outra é a grande luta final, a que marca o desenrolar de todas as pontas soltas pelo autor. O que, obedecendo o autor, não será revelado (pelo menos por mim, aqui).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Um ponto que talvez seja de grande dificuldade para o leitor seja a linguagem utilizada ao longo do livro. Linguagem densa, baseada em criações lexicais que só serviriam para exprimir a vontade daqueles homens do sertão. E paradoxalmente uma linguagem simples, como a do sertanejo, que vive no interior de Minas, divisa com Goiás e Bahia, pouco escolarizado (o único dos jagunços que tinha instrução era o próprio &lt;b&gt;Riobaldo&lt;/b&gt;).&lt;br&gt;&lt;br&gt;De resto, o livro é fascinante. Riquíssimo em detalhes, é, muitas vezes, extremista, contando como foi uma noite véspera de esperado combate.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;i&gt;Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa&lt;/i&gt;. A lição de uma existência onde viver - sempre - é perigoso, é uma toante do livro.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Muitas coisas a respeito de &lt;b&gt;Guimarães Rosa&lt;/b&gt; foram publicadas nesse último ano de 2003. A mais importante delas é a correspondência entre autor e o tradutor alemão de &lt;b&gt;Grande Sertão: Veredas&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A edição de 2001 da &lt;b&gt;Nova Fronteira&lt;/b&gt; traz breve estudo de &lt;b&gt;Paulo Rónai&lt;/b&gt;, chamado &lt;i&gt;Três motivos em Grande Sertão: Veredas&lt;/i&gt;,além de um fac-símile de poema de &lt;b&gt;Carlos Drummond de Andrade&lt;/b&gt;, publicado três dias após a morte do autor, que cumpriu a promessa de não resistir à  emoção de ser eleito membro da controversa e nem sempre representativa Academia Brasileira de Letras.&lt;br&gt;&lt;br&gt;No balanço final cheguei à  conclusão de que &lt;b&gt;Guimarães Rosa&lt;/b&gt; não chega a ser um escritor a ser considerado difícil. Ele é bem simples. Sua escrita é feita baseada na simplicidade que não estamos acostumados a ver e que, por ser assim mesmo, simples, fica difícil de entendermos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;E a lição que resta é que o microcosmo de &lt;b&gt;Rosa&lt;/b&gt; - o sertão - não é simplesmente uma metáfora do mundo. É muito mais que isso: uma metáfora do ser humano, muitas vezes árido e cheio de veredas. Ou alguém não é assim?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-107335577883339688?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/107335577883339688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/107335577883339688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107335577883339688' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-107335522341907367</id><published>2004-01-06T00:12:00.000-02:00</published><updated>2004-01-06T00:15:22.373-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A data máxima estipulada para que eu voltasse era alguma semana perdida antes do semestre longo e cansativo pelo qual passei. Infelizmente não deu. No entanto eu não poderia jamais esqecer desse propósito que, no final das contas, é dividir um pouco das minhas experiências com algum internauta que acha esse blog nos buscadores da internet - definida por Ancelmo Góis como território livre.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Até que ponto é território livre? Não sei. Respostas, às vezes, não são necessárias. Pelo menos por enquanto. E enquanto não há certeza pelas idas e vindas da vida, continuemos nossa programação normal.&lt;br&gt;&lt;br&gt;É bom rever vocês.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-107335522341907367?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/107335522341907367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/107335522341907367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2004_01_01_archive.html#107335522341907367' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-95518261</id><published>2003-06-10T16:30:00.000-03:00</published><updated>2003-06-10T16:30:42.850-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Por motivos alheios a minha vontade esse blog só volta (e volta com força total) em julho. Desculpe(m) o transtorno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-95518261?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/95518261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/95518261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_06_01_archive.html#95518261' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-94180670</id><published>2003-05-12T00:15:00.000-03:00</published><updated>2003-05-12T00:15:21.086-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.sodiler.com.br/capas/semcapa.gif"&gt;&lt;br&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;b&gt;A última sessão de cinema&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Ronald Claver&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Melhoramentos&lt;/b&gt;, 1986, &lt;b&gt;SP&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Esse livro obteve o 1º prêmio da 3ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. E não é para menos. É um livro que me marcou desde a primeira leitura, feita quando tinha por volta dos quinze anos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;É a narrativa de uma turma e suas peripécias de pré-adolescentes que pode ser lida de duas maneiras. Escolhendo qualquer um dos capítulos ou então de uma vez só. Poucos são os escritores que conseguem criar, na literatura infanto-juvenil - que é muito mais difícil por ter visar um público em especial - uma estrutura tão complexa, que passa desapercebida dos leitores.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Algumas passagens (e frases) são de primeira grandeza. Como "&lt;i&gt;Há outros amores, diferentes, que pegam a gente no descuido. Depois, só muito depois, que se percebem as unhas&lt;/i&gt;" ou "&lt;i&gt;Não sei por que a gente fica querendo contar essas coisas que ficaram e ficam na retina. Que calaram e calam no dentro. E doem, doem, doem.&lt;/i&gt;", ou ainda "&lt;i&gt;Contar é resistir. E o que é resistir? É ficar de pé, mesmo depois do nocaute? É isso, é? Roer os ossos do passado. Não sou catálogo de escombros. Não. Sou o agora. O mundo está cheio de frases feitas. As palavras estão aí.&lt;/i&gt;".&lt;br&gt;&lt;br&gt;Em partes a falta de pontuação e parágrafo sugerem um crescente para a história; em outras, parágrafos curtos, ações rápidas, pequenos fins. O livro em si não tem um grand finale.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Não há um capítulo (ou conto, como queiram) que mereça mais destaque que outro. Desde o prólogo, passando pela história dos sustos da professora ("&lt;i&gt;necessidades de todo adolescente que sente falta de carinho&lt;/i&gt;") , a descoberta do amor ("&lt;i&gt;A gramática do amor não conjuga o verbo no futuro&lt;/i&gt;"), futebol ("&lt;i&gt;Futebol é uma caixinha de surpresa. São 11 contra 11 e vence sempre o melhor, e nós somos os melhores. Time que apanha em campo, apanha também no vestiário&lt;/i&gt;"), cinema ("&lt;i&gt;Estamos presos e imersos na fantasia. Sem arredar os olhos da tela&lt;/i&gt;"), enfim o mundo adolescente de um narrador bem saudosista.&lt;br&gt;&lt;br&gt;No final do livro, também como um capítulo, um glossário sobre o livro. Em &lt;u&gt;autor/es&lt;/u&gt;, palavras pertinentes em todo o tipo de literatura: "&lt;i&gt;No Brasil não (tem) têm a mínima importância. O que vale é a história. O poema, a técnica. Nunca deram importância ao homem. O autor, se possível, deve vender uma imagem de beberrão, doente, desligado. É por isso e por outras que nunca recebe seus direitos autorais corretamente.&lt;/i&gt;".&lt;br&gt;&lt;br&gt;E já que o próprio &lt;b&gt;Ronald&lt;/b&gt; questiona a falta de comentários sobre o autor, vale a pena dizer que esse livro foi escrito durante uma greve e era para ser somente um conto. Como sempre, a greve aumentou e o que era para ser uma história de poucas laudas virou um livro muito interessante e que deve ser de cabeceira para adolescentes ou não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-94180670?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/94180670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/94180670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_05_01_archive.html#94180670' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-94180578</id><published>2003-05-12T00:13:00.000-03:00</published><updated>2003-05-12T00:16:20.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.sodiler.com.br/capas/semcapa.gif"&gt;&lt;br&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;b&gt;Graciliano: retrato fragmentado&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Ricardo Ramos&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Siciliano&lt;/b&gt;, 1992, &lt;b&gt;SP&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Tendo uma idéia mais ou menos fixa de quais livros seriam comentados por aqui, tinha quase certo o nome da primeira biografia - minha atual fascinação literária - a ser tratada por mim. Tratava-se de &lt;b&gt;Solo de Clarineta&lt;/b&gt;, do não menos importante &lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt;. Porém surgiu sem muita demora um livro interessantíssimo em minhas mãos e, por isso, o livro de &lt;b&gt;Erico&lt;/b&gt;, que li duas vezes (os dois volumes) esperará mais um pouco. Tudo por causa desse retrato fragmentado de um dos grandes nomes da literatura brasileira: &lt;b&gt;Graciliano Ramos&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Sobre o autor do livro, o filho &lt;b&gt;Ricardo Ramos&lt;/b&gt;, sempre me vem à mente a opinião de &lt;b&gt;Menalton Braff&lt;/b&gt;, em palestra ocorrida no SESC de São Carlos: o maior problema dele foi ter sido filho de &lt;b&gt;Graciliano&lt;/b&gt;. E é verdade. &lt;b&gt;Ricardo Ramos&lt;/b&gt; tem um tom completamente diferente de seu pai e só não foi um grande nome da Literatura porque era filho do &lt;b&gt;Velho&lt;/b&gt;, como ele chama o pai durante boa parte do livro.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Retrato fragmentado diz bem do livro. Cada hora temos um &lt;b&gt;Graciliano&lt;/b&gt; diferente. Fragmentos de uma mesma pessoa. O  idealista, que não se curvou aos desmandos políticos e administrou Palmeira dos Índios com mãos de ferro, multando até seu pai, que descumpriu ordem da prefeitura (&lt;b&gt;Graça&lt;/b&gt; disse, na época, que prefeito não tinha pai); o meticuloso, que limpava as mãos com pedra-pomes para tirar o amarelo da nicotina; o sarcástico, que criticava a mãe por ter casado com o pai, dezoito anos mais velho, e, na sua vez, repetiu a mesma coisa, casando com &lt;b&gt;Heloísa&lt;/b&gt;, dezoito anos mais nova (quando sua mãe fez menção de dizer algo, retaliou dizendo que não se fala de corda na casa de enforcado).&lt;br&gt;&lt;br&gt;O panorama de toda a vida de &lt;b&gt;Graciliano&lt;/b&gt; é conduzido com maestria, começando no dia de seu velório e, posteriormente, enterro, dando saltos ao passado e chegando ao sucesso póstumo de sua obra. Traz momentos difíceis, como, por exemplo, o suicídio do filho &lt;b&gt;Márcio&lt;/b&gt; e o câncer que o vitimou, em 1953.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Estamos, então, comemorando (apenas estou copiando essa palavra do &lt;i&gt;Folha Sinapse&lt;/i&gt;, pois não me soa normal comemorar morte) 50 anos do desaparecimento de &lt;b&gt;Graciliano Ramos&lt;/b&gt;. Para a data, a editora &lt;b&gt;Record&lt;/b&gt; está relançando &lt;b&gt;Vida Secas&lt;/b&gt;, edição aumentada em um posfácio. Creio que também relançará outros livros do autor - breve aqui no &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt; - que trouxe à literatura de 30 a continuação dos estudos da psicologia humana, tal como &lt;b&gt;Machado de Assis&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mas, falar de sua biografia não quer, necessariamente falar somente de sua obra. &lt;b&gt;Ricardo Ramos&lt;/b&gt; deixa evidente toda a preocupação que o pai tinha com os textos (o papel da literatura) e o papel social do escritor. Mas &lt;i&gt;...retrato fragmentado&lt;/i&gt; é mais. É uma viagem a um mundo completamente desconhecido dos leitores: a cabeça do escritor. A viagem desse livro é conduzida pelo melhor guia que pode existir: o filho, também escritor, que sabe quando deve dizer algo ou quando deve prender a atenção - e respiração - do leitor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-94180578?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/94180578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/94180578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_05_01_archive.html#94180578' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-94180370</id><published>2003-05-12T00:09:00.000-03:00</published><updated>2003-05-12T00:12:23.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;center&gt;ESPECIAL&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Ouvindo Quintana minha alma assovia e chupa cana&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;p align=right&gt;Alice Ruiz&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;p align=justify&gt;Muito antes da inauguração da Casa da Cultura Mário Quintana, veio o convite para que eu desse uma oficina de hai-kais, em Porto Alegre.&lt;br&gt;&lt;br&gt; Em setembro, quando está quase tudo certo, encontro a Lúcia no lançamento da revista "Bric-A-Brac", em São Paulo. Ela me propõe uma entrevista com o próprio. É aí que começa esse calor no coração, que, sei agora, não vai mais passar.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Me pego em flagrante de tietagem, é que sempre me vangloriei de nunca ter tietado ninguém. Revejo-me agora, no lançamento do meu livro "Pelos Pêlos", em 84, quando me perguntaram numa entrevista: - Drummond ou Cabral? E eu respondi: - Quintana.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Relembro também nosso encontro em Florianópolis, numa Bienal Nestlé, em 1985, eu completamente encantada com aquele transbordamento de poesia concisa, em cada uma das suas palavras.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Tiete assumida, nos acertos finais com a Simone, da Casa da Cultura, falei: - Meu preço principal é entrevistar o Quintana. E fiquei com a promessa de que ela iria tentar.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;Dia a dia, o ardor de andar em direção a Mário 23 de outubro, 1990&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Desço com minha Estrela em Porto Alegre. Fico sabendo que me hospedarei no hotel em que Mário mora: Porto Alegre Residence. Mais que isso, me alojam no mesmo andar que ele. Eu no 304, ele no 301.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Quando o elevador chega no 3º andar, procuro primeiro o seu quarto e só depois o meu. Daqui para frente, não há nenhuma vez que meu olhar não se volte, espontaneamente, para o fim do corredor. A cada saída, a cada chegada, essa é a porta que importa.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;24 de outubro&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Simone, Clarisse, Lia, todas da Casa de Cultura, me dizem que são amigas da Helena, sobrinha do Mário, e já falaram a ela das minhas intenções de entrevistá-lo. À noite, depois da oficina, alguns amigos poetas me falam da dificuldade de chegar no Mário.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;25 de outubro&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Saio à tarde para dar uma entrevista. No corredor, esperando o elevador, ouço a voz do Mário, que conheço muito bem de um disco que tenho, das mil vezes que ouvi, de lembranças de Florianópolis, de entrevistas em vídeo e TV. Parece ditar alguma coisa para alguém. Só a voz no corredor. Não entendo o que diz, mas não precisa, a entonação está cheia de poesia. À noite, terceira da oficina, na linda casa rosa, um dia Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana. Aqui, morou Mário. Na saída, meu amigo Alexandre Brito me diz que deixou um gravador e uma fita, no hotel, no caso de Mário topar a entrevista, mas as meninas da Casa me dizem que Mário vai receber, que lembra de mim e da minha poesia, mas que está avesso a entrevistas.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;26 de outubro&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Torno-me ousada. Junto as duas revistas "Bric-a-Brac" e escrevo um bilhete ao Mário pedindo a entrevista, deixando bem claro que, se ele não estivesse a fim, vê-lo e dar-lhe um beijo me faria igualmente feliz. Ligo para o 301 e peço para entregar as revistas. A secretária Sandra me recebe e promete entregar a ele. Sinto que vou me aproximando aos poucos. Agora é esperar.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;27 de outubro&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;O telefone me acorda, são 10 horas. Sandra me avisa que ele me receberá às 14 horas. Tomo um banho e desço correndo. A "Zero Hora" me aguarda para uma entrevista sobre a oficina de hai-kai, sobre o livro do Paulo que acaba de sair pela Sulina, sobre minha poesia. Enquanto dou entrevista penso na possível entrevista com Mário. Será assim? Não. Do Mário eu só quero poesia. A entrevista se prolonga. Quando vou para o quarto o telefone toca várias vezes, sobre vários assuntos, com várias pessoas. Preciso comer agora ou depois não será possível.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;No restaurante&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Peço ao garçom uma salada porque é mais rápido. Explico que tenho pressa porque vou me encontrar com Mário Quintana. O garçom, antes de atender meu pedido, previne que não conseguirei, afinal, segundo ele, gente famosa como Lidia Brondi e Herson Capri já tinham ido a Porto Alegre e se hospedado naquele hotel, especialmente para vê-lo e não tinham sido recebidos. Em resposta, peço para apressar a salada assim mesmo. Enquanto almoço, o telefone do restaurante toca e o nosso garçom atende, saindo logo em seguida com uma garrafa térmica. Cinco minutos depois ele desce, se dirige à minha mesa e me pergunta se sou poeta. Diante da resposta afirmativa, ele me avisa que o Mário Quintana pediu café porque estava esperando a visita de uma poeta. Assino a nota e saio correndo, achando graça da perturbação do rapaz.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;No quarto&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Escovo os dentes, passo batom, pego alguns livros meus para presentear o Mário e paro, embatucada, diante do gravador. Levar ou não. Mas o Alexandre atravessou a cidade de moto com esse gravador?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Um gravador tão pequeno. Escondo no meio dos livros e atravesso o corredor emocionada como uma garota que tem o primeiro encontro com o namorado.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;Entrevista/Mário Quintana&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Apartamento 301: um flat igual ao meu. A diferença são os livros, que cabem numa estante relativamente pequena. Algumas fotos na parede. Um quadro com seu mapa astral. Enquanto Sandra vai para o quarto, avisar o Mário que eu já cheguei, copio seu mapa astral da parede. Sol em Leão a 6ª, ascendente em Peixes a 7ª, Lua em Sagitário, Mercúrio em Leão, Vênus em Virgem, Marte em Capricórnio, Saturno em Peixes, Júpiter e Netuno em Câncer, Urano em Gêmeos, nenhuma informação sobre Plutão, nodo lunar, roda da fortuna ou Lilith. Quando estou copiando os graus, Mário entra na sala.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Elegante, num robe cinza-azulado com gola e punhos bordeaux.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Pega em flagrante, depois de beijá-lo, me explico:&lt;br&gt;&lt;br&gt;- Estava copiando teu mapa astral, é que sou astróloga.&lt;br&gt;&lt;br&gt;- Então me conte. Diz ele, dando aquela entonação sábia e poética.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Começo falando do Sol, em sua própria casa, o patrono da poesia, Apolo, completamente à vontade. Falo da Lua em Sagitário, o signo da filosofia, das idéias. Ele me ouve sorrindo. Falo do ascendente, Peixes, o mais plástico dos signos porque....&lt;br&gt;&lt;br&gt;- Porque a vida começou no mar, ele me diz.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Nos sentamos frente a frente, na mesinha da sala. Entre nós, a garrafa térmica de café e duas xicrinhas vazias. (É a primeira vez que sinto ternura por uma garrafa térmica). Ao lado dele, seu livro mais recente, o "Velório Sem Defunto". Ele pega e começa a autografar para mim.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Faço o mesmo com os que trouxe para ele. Trocamos os livros. O "Paixão Xama Paixão" dedico "ao meu amor Mário", ele me chama de fingida, mas diz que o amor, mesmo quando é fingido, é bom.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário cruza a perna e esbarra na minha, por baixo da mesa, o que serve de mote para começar a falar:&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário Quintana - Desculpe, é esta perna. Eu andei atropelando um automóvel e por isso não caminho direito. Não é da idade. Eu nunca me senti com idade nenhuma. Eu tinha um tio que dizia: "Ah! os velhos tempos". Um dia, eu perdi o respeito e respondi: "Os tempos são sempre bons, o senhor é que não presta mais". Estou com 84 anos não sei por que, não foi por falta de descuido.(Comento com Mário sobre o evento poético que está acontecendo na cidade: "24 Horas de Poesia", com poetas na praça).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - É preciso que haja essa profusão de poetas. De centenas de Chiquinha da Silva sai uma Cecília Meireles. Eu acho a Cecília o maior poeta brasileiro dos primeiros 50 anos deste século.&lt;br&gt;&lt;br&gt;(Pára um pouco, como quem se lembra).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Poetas. O poeta tem que ser muito cuidadoso. Eu sempre fui. O cuidado com as palavras tem que ser como o cuidado farmacêutico. Eu, na escola, estudava Francês e Português. O resto eu adivinhava. Meu pai queria que eu me formasse, mas ele não pôde comigo. Aí meu pai me levou para trabalhar com ele. Durante sete anos fui prático de farmácia e foi aí que eu aprendi a cuidar dos ingredientes. Acho que meu cuidado com a forma começou aí. Não é fácil descobrir qual é a melhor forma entre as mil e uma maneiras que se pode dizer as coisas. Então, depois destes sete anos, fui fazer o que queria fazer: escrever. Comecei no Jornal Estado do Rio Grande, dirigido pelo Raul Pila. Fazia a seção O Jornal dos Jornais. Um resumo dos editoriais dos jornais do grande eixo Rio-São Paulo. O que colaborou para o meu amor à síntese. Porque poesia é síntese.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice Ruiz - E o hai-kai?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Fiz um mundo de poesias curtas. Fazia três linhas e chamava de hai-kai, mas nunca liguei para as dezessete sílabas. A poesia e a fotografia têm uma coisa em comum: eternizar o momento que passa. Você e o Leminski gostam muito de hai-kai né?(Lembrando e contando para a Sandra).&lt;br&gt;&lt;br&gt;O Leminski era muito engraçado, muito divertido. Me apresentava para todo mundo assim: Esse é o gaúcho machão. Aí, numa entrevista, um repórter colocou a mão no joelho da Alice e ele ficou furioso. E ainda dizia que o machão era eu.&lt;br&gt;&lt;br&gt;(Que memória, eu mesma não lembrava disso.)(Toca o telefone, Sandra vai atender.)&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário diz para ela: - Diga que acabei de falecer subitamente.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Eu rindo: - Posso contar isso?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Pode. Pode até mentir, se quiseres. (Só então crio coragem para ligar o gravador. Partimos para um jogo simples. Digo uma palavra apenas e ele responde.)&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Tradução.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - A tradução dos meus sentimentos? Está na poesia.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Não. A profissional. Você traduziu mais de cem livros.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Ah, muitos eram sem importância, porque eram desses livros que o autor ditava numa semana, a moça estenografava e eu levava quatro meses traduzindo. Mas traduzi livros de grande importância. Fui tradutor do Marcel Proust, por exemplo. Acho que a tradução de um grande escritor, para a nossa língua é, nada mais nada menos, do que a idéia desse escritor na literatura brasileira.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice -A gente aprende alguma coisa traduzindo?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Aprende o quê? A escrever melhor. Eu sempre procurei escrever melhor. Foi por isso que eu demorei tanto a escrever meu primeiro livro. Foi publicado quando eu tinha 34 anos de idade e era composto só de sonetos. O soneto era um gênero que estava muito desmoralizado, naquela época, por causa da eterna chave de ouro que não passava de pura chave de latão. Comecei a fazer sonetos quando tinham chave de ouro. Quis provar que o soneto também era um poema, independente de ter 14 versos. E o livro foi um sucesso enorme. Foi bom.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice -Escola poética?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Nunca pertenci a escola poética nenhuma. Escolas poéticas são coisas da moda. É o mesmo que embarcarmos todos no mesmo navio. Quando passa a moda, o navio naufraga e vão todos para o fundo. Mas, ao mesmo tempo que escrevi um soneto no "Caderno H", escrevia coisas que, naquele tempo, se poderiam chamar de surrealistas. Escrevia também poemas em prosa. Fiz todos os gêneros poéticos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Casamento?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Eu tive umas namoradas como todo mundo. Mas elas foram muito compreensivas porque acabaram casando com outros para preservar minha independência. O que eu gosto, mais que tudo, é da minha independência.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Poesia?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - A poesia não se entrega a quem a define. Mas para mim é uma coisa louca. A diferença entre um poeta e um louco é que o louco não sabe que é louco e o poeta sabe. A poesia é uma loucura lúcida.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Tesão?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - O que é isso? Isso é da idade. Agora, aos 84 anos, só pode ser sinônimo de saudade.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Paixão?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Baudelaire diz, num poema em prosa, que a gente sempre deve estar embriagado. Eu acho que o poeta sempre deve estar apaixonado, independentemente de ser correspondido ou não. Apaixonado por alguém, por alguma coisa, por uma idéia. Sem paixão não há lavor nem poesia.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Deus?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - É uma coisa que eu só vou saber na hora de passar para o outro lado. Tenho muita curiosidade, mas não tenho pressa nenhuma.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Humor?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - É necessário. É necessário. Porque o desespero e a lágrima são coisas ridículas e melodramáticas. O melhor é rir das coisas más que nos acontecem.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice -Sucesso?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário ­ Ah! o sucesso que a gente fala? Bem, o Rudyard Kipling, no poema, dedicado ao filho dele, falava: "se conseguires ser superior a esses dois impostores, o sucesso e o fracasso, serás um homem, meu filho".&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Cidade?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - A cidade é uma coisa que conhece a gente. Por exemplo, é claro, quando eu ando em Porto Alegre, as casas antigas me reconhecem quando eu passo. Mas as casas novas não sabem quem sou. Eu sempre fui citadino. Acho que, se a vida das cidades enlouquece, a dos campos embrutece.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Saudade?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Acho que é um lugar comum, até porque é óbvia, é de todo mundo. Acho que a pior saudade é a que a gente sente de si mesmo.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice -Criança?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Eu gosto muito de criança... pintada num quadro. Acho muito bonito. Adoro aquelas crianças que o Renoir pintava.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice -Solidão?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - É bom como a escuridão, principalmente se sabendo que, abrindo os olhos, existe luz do outro lado. Queria saber se há luz do outro lado.(Neste momento, Sandra lembra de um poema que o Mário fez sobre solidão).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - É mesmo, eu disse: "Só Deus que é único, que não tem par, pode dizer o que é solidão".(Aqui, Mário faz um gesto meio dengoso para Sandra, ela levanta e vem coçar-lhe as costas, ele começa a falar dela).&lt;br&gt;&lt;br&gt;- Ela é que devia dar a entrevista, lembra mais do que eu. Essa moça é minha secretária, a trabalheira que ela tem é datilografar o que escrevo porque eu não sei pensar à máquina, só sei escrever a mão. Então ela datilografa e me coça as costas.(Ela termina de coçar as costas e nós comentamos como ela é bonita).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Alice - Beleza?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Beleza? Pode até ser a coisa mais feia do mundo, desde que tenha significação. Um sapo é um bicho tão bonito. Tudo é bonito em si. O que é feio mesmo? Mas eu acho que não há nada feio.(Sandra diz que é a fome).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - A fome é horrível e isso é tudo. Qualquer fome. Por exemplo, no hotel a gente não pode ter um gato. Em casa, quando sobra comida, a gente dá pro gato comer. No hotel é proibido e a gente tem que jogar fora o que não come. Isso dá um certo remorso.(Estamos os três meio tristes, mas Mário é o primeiro a reagir).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - O mundo sai de todas as crises. Quantas crises ele já passou? O mundo não acabou até hoje, por que vai acabar agora?(Eu lembro de um poema do Mário em que ele fala do problema da superpopulação).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - É, tem isso. Há uma certa sabedoria nas guerras, nas pestes. É triste, mas é assim. Foi excesso de população que acabou com aqueles animais antidiluvianos do tamanho de edifícios.(Não adianta, estamos tristes mesmo. Mário olha para meu cigarro, em cima da mesa - não fumei enquanto estava lá - e me diz que já deixou de fumar umas 16 vezes).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - A força da vontade é uma vulgar virtude burguesa. Parei de fumar porque absolutamente não posso. Ando meio pestiado, mas isso é provisório. E depois, como eu já escrevi, o cigarro tem gosto de fim de linha. (Pára um pouco, me olha firme e doce, dizendo):&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Eu já estou cansado.(Fim de linha para nossa entrevista).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Me levanto para ir embora, são 15h30, não quero cansá-lo mais. Ele e Sandra me acompanham até a porta. Ele me pede para mandar a revista quando sair a entrevista. Me beija, me chama de querida e, completamente generoso, diz que adorou minha visita. Quando a porta se fecha, ouço a conversa com Sandra, ele diz:&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mário - Viu como ela é meiga?&lt;br&gt;&lt;br&gt;No corredor, sem medo de ser melodramática ou ridícula, começo a chorar. Mas essas lágrimas, Mário, nada têm de desespero. É só a emoção de ter tido esse encontro com a poesia em toda sua grandeza.&lt;br&gt;&lt;br&gt;São 16 horas quando chego na praça onde está acontecendo a Feira do Livro. Hora da inauguração do evento "24 Horas de Poesia", que só terminará amanhã, às 16 horas. Três poetas sobem ao palco para dar início ao seu recital. Celso Gutfreind, José Antonio Silva, José Weis. Depois é a vez de Wal e Lu nos apresentarem um fragmento do seu espetáculo "Escondida na Calcinha", onde dizem poemas de vários poetas (dizem, interpretam, vivem, tudo com a alma de poeta que eles têm). Então sobem ao palco os dois Ricardos, grandes bardos, Silvestrin e Portugal, com os igualmente grandes Mário Pirata, Alexandre Brito, Fred Maia. Dizem poemas seus, uns dos outros e de muitos outros, até meus. Depois deles, outros vão subindo, poetando sem parar. Na platéia, mais poetas, espalhados como as flores roxas que cobrem as árvores da praça e, por causa do vento, cobrem todo o chão de Porto Alegre. Ao meu lado, Estrela, minha filha de nove anos que acaba de se descobrir poeta, do outro lado, Otávio Lokschin, 13 anos, a revelação (para mim) da oficina de hai-kais.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Por todos os lados, nos ouvidos, em todos os sentidos, as flores roxas da poesia se espalham na cidade. Poesia, suave, marota, profunda, simples, feliz. Essas flores que eu pensei fossem de ipê, mas Zilda Castro, outra poeta de grande sensibilidade, me conta serem de jacarandá, essas flores são mesmo de uma outra árvore, a árvore da poesia, e o vento que as espalha, semeando em toda a cidade o vírus definitivo e benfeitor, tem um nome: Mário Quintana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-94180370?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/94180370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/94180370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_05_01_archive.html#94180370' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93844696</id><published>2003-05-06T02:24:00.000-03:00</published><updated>2003-05-06T02:25:23.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;OUTROS COMENTÁRIOS&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;b&gt;Borges e suas 25 aulas de amor à literatura&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;i&gt;Curso de literatura inglesa, de Jorge Luis Borges. Organização de Martín Arias e Martín Hadis. Tradução de Eduardo Brandão. Editora Martins Fontes. R$ 42,50&lt;/i&gt;&lt;br&gt; &lt;br /&gt;&lt;i&gt;Luciano Trigo&lt;/i&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mesmo que, por sua origem e natureza, "Curso de literatura inglesa" não estivesse à altura dos ensaios de Jorge Luis Borges que já nasceram como livros, a sua publicação já valeria pelo registro, até agora inédito, da atividade docente do escritor argentino. Pois era de se esperar que, nas 25 aulas que Borges deu em 1966 na Universidade de Buenos Aires, e que foram transcritas na época de fitas gravadas por alguns alunos (hoje perdidas), a magia e o engenho borgianos fossem comprometidos pelos imperativos didáticos e pelos limites impostos por um programa de aulas cronológico — ainda que o tema fosse da predileção de Borges, um anglófilo assumido.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mas, apesar da linguagem oral que a edição conserva, apesar das repetições, apesar dos lapsos (sobretudo em relação a datas e números), apesar dos detalhes fantasiosos que Borges acrescenta para colorir algumas passagens, ou talvez por causa disso tudo, em cada aula se renova o encantamento que produzem os seus melhores textos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;Organizadores rechearam textos de notas elucidativas&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Organizadas de forma minuciosa pelos jovens (nascidos em 1970 e 1971) pesquisadores Martín Arias e Martín Hadis — trabalho de malabarismo que eles definem como “correr atrás de um Borges que se perdia entre os livros de uma biblioteca, ou (...) em cada esquina de um vasto labirinto” — as 25 aulas vêm recheadas de elucidativas notas que complementam, interpretam e até corrigem (sim, Borges errava, já que citava de memória) as digressões do mestre sobre alguns de seus temas e autores favoritos: os anglo-saxões, os vikings, as origens da poesia na Inglaterra; Samuel Johnson, William Blake, Wordsworth, Coleridge, Carlyle, Robert Browning, Stevenson, Charles Dickens e Dante Gabriel Rossetti, entre outros.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Borges é generoso e paciente como professor, mas nunca deixa de ser Borges, navegando a toda hora pelo fantástico, como quando aborda a teoria do duplo: “Eu, por exemplo, nasci no mesmo dia em que nasceu Jorge Luis Borges”, escreve. “Já o vi em algumas situações, às vezes ridículas, às vezes patética, e (....) identifiquei-me com ele”.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Um dado curioso é que, em 1966, em plena onda estruturalista, quando a crítica era dominada por conceitos como a “morte do autor” e outras bobagens, Borges coloca os autores acima dos movimentos literários, traçando perfis de personagens reais que beiram o fantástico. Sua descrição de Samuel Johnson é ao mesmo tempo carinhosa e cruel (fisicamente deformado, pesado e feio, com tiques nervosos, motivo de chacota na universidade, depois casado com uma mulher velha, feia e ridícula, com traços maníacos, mas... dono de uma “uma inteligência realmente genial”). Sobre o biógrafo de Johnson, James Boswell, Borges oscila entre fazer eco a Macaulay, ao dizer que deve sua primazia como biógrafo “à sua insensatez, à sua inconsciência e à sua imbecilidade”, e a Bernard Shaw, para quem Boswell foi um herdeiro de Shakespeare, e cuja maior criação foi a de um personagem dramático chamado Samuel Johnson.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A História representava para Borges mais um ramo da literatura fantástica. Nesse sentido, pode-se considerar que os escritores ingleses analisados durante o curso são personagens de Borges, tamanha é a atenção dada aos detalhes psicológicos e biográficos que os explicam e justificam — o misticismo de Blake, a teimosia de Wordsworth etc. De Coleridge ficamos sabendo que, apaixonado por uma jovem, casou-se com sua irmã mais velha, “por delicadeza”, para não ferir seu orgulho sexual.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Já a história da vida de Rossetti, tal como contada por Borges, é digna de figurar em antologias de relatos fantásticos: sentindo-se culpado pelo suicídio da mulher, ele deposita no peito da morta, no caixão, seu caderno de sonetos. Anos depois, é convencido a desenterrá-lo, e o livro se torna decisivo para a glória do poeta. “E o manuscrito tinha manchas da putrefação do corpo, da morte...”, escreve Borges, lembrando Edgar Allan Poe.&lt;br&gt;&lt;br&gt;E nem seria original apontar Borges como personagem de Borges, o que é reafirmado no início da 13 aula: “Uma das obras mais importantes de um escritor — talvez a mais importante de todas — é a imagem que deixa de si mesmo na memória dos homens, para lá das páginas escritas por ele”.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A riqueza de anedotas não compromete a profundidade da análise. Em cada lição se multiplicam os exemplos da argúcia do escritor, mas basta citar a forma sintética como ele avalia Dickens: sua obra padece de sentimentalismo, é maniqueísta, tem finais artificiais; mas Dickens descobriu duas coisas fundamentais para toda a literatura posterior: a importância da infância, sua solidão e seus temores, como matéria-prima da literatura; e a importância da paisagem urbana, pois, ao tratar de Londres, torna-se o primeiro escritor a revelar a poesia dos lugares pobres e sórdidos. “A verdade é que ler algumas páginas de Dickens”, escreve, “(...) é encontrar um amigo para toda a vida”.&lt;br&gt;&lt;br&gt;“A leitura deve ser uma das formas da felicidade”, afirma Borges no texto que serve de epílogo ao livro, extraído de uma entrevista. Em sintonia e com toda a razão, os organizadores escrevem: “O fio que une todas essas aulas é o prazer literário”. Borges não queria ensinar literatura, mas o amor à literatura. Já quase completamente cego, a atividade de professor era uma de suas principais alegrias. É nítido e contagioso o entusiasmo com que o autor de “O Aleph” compartilha com seus alunos (aliás alunas, em sua maioria) a sua enciclopédica erudição, transformando mesmo os temas mais áridos e distantes em páginas saborosas. Por exemplo, as primeiras sete aulas são totalmente dedicadas à literatura da Inglaterra medieval, analisando textos escritos num incompreensível inglês antigo, do século V a 1066, e ainda assim se lêem com prazer. Borges pega um texto difícil como o “Beowulf”, brinca com etimologias, recita e analisa, faz comparações inusitadas com a cultura argentina, recria uma atmosfera de batalhas sangrentas, conspirações e assassinatos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;“Os versos num idioma estrangeiro”, justifica, “têm um prestígio que não têm no idioma próprio, porque se ouve, porque se vê cada uma das palavras”. Borges apresenta poemas épicos medievais com a facilidade de quem resume um filme de ação. O espaço dedicado aos primórdios da literatura anglo-saxã é tão surpreendente quanto a ênfase dada a autores “menores” —- como o poeta do século XIX William Morris, ou a quase ausência de qualquer menção a... William Shakespeare — talvez porque Borges julgasse o bardo infinito e inabordável.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Como se vê, ele seguia um plano de aulas nada convencional, e que além do mais variava a cada período. Vale lembrar que Borges aprendeu com suas avós a falar inglês e espanhol ao mesmo tempo, sem saber que eram dois idiomas distintos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;u&gt;Um homem gentil, ao qual não interessava a fama&lt;/u&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;No diálogo que o autor trava com diferentes concepções da literatura, mil paralelos se podem estabelecer entre Borges e seus personagens, ou entre a obra de Borges e a de seus personagens. “Borges era um homem gentil”, escreve Martín Hadis. “Consta que não lhe interessava a fama”. Cem páginas depois, o próprio Borges, falando de W.M. Tackeray, lembra que ele recusou ser entrevistado por um jornalista, alegando: “I’m a private gentleman”. Registro de uma época em que querer aparecer era sinal de vulgaridade... Na quinta aula, em que analisa a “Balada de Maldon”, do século X, Borges lembra que se trata da história de um jovem cortesão que se transforma num guerreiro disposto a morrer, e é inevitável pensar aqui no protagonista de seu conto “O sul”, que passa por uma transformação semelhante.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Só de literatura inglesa, Borges lecionou durante 40 trimestres, e sabe-se que um curso nunca era igual ao outro. Por isso, paradoxalmente, a felicidade produzida pela leitura deste livro vem acompanhada de uma tristeza: a de saber que muitos outros cursos se perderam na noite dos tempos, pelo mero acaso de que não foram gravados por alunos preocupados com colegas faltosos. A euforia diante deste “curso de literatura inglesa” vem acompanhada da tristeza de se imaginarem as centenas de aulas que se perderam. Em se tratando de Borges, contudo, nada mais adequado que terminar esta resenha com um paradoxo.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;i&gt;LUCIANO TRIGO é jornalista e escritor&lt;/i&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Colaboração: Deonísio da Silva&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93844696?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93844696'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93844696'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_05_01_archive.html#93844696' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93772662</id><published>2003-05-04T22:32:00.000-03:00</published><updated>2004-01-12T16:56:18.826-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.sodiler.com.br/capas/semcapa.gif"&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Paixão Xama Paixão&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Alice Ruiz&lt;/b&gt;. 1983, &lt;b&gt;Curitiba/PR&lt;/b&gt;.&lt;p align=justify&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Tão poeta quanto &lt;b&gt;Paulo Leminski&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Alice Ruiz&lt;/b&gt; tem o dever de mostrar que não vive apenas na sombra dele. Essa sua &lt;b&gt;Paixão Xama Paixão&lt;/b&gt; é um livro que diz isso e muito mais.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A começar pelo formato, tudo nele é novo. A capa, uma foto de &lt;b&gt;Alice&lt;/b&gt; e nada mais, com o formato dos antigos discos pequenos, anuncia um pouco a que o livro veio.  O primeiro poema faz uma propositura a quem quiser entrar em seu mundo: "&lt;i&gt;topa um pacto de sangue/com essa cigana do futuro/que lê/o passado na tua boca/o presente no teu corpo/e nos teus olhos/tanto quanto nos astros?&lt;/i&gt;". Uma proposta dessa não tem muita coisa a dizer: é pegar e entrar em um mundo experimentalista próprio de &lt;b&gt;Alice&lt;/b&gt; ou largar e cair nos velhos chavões da poesia brasileira. Daqui por diante a viagem é ao gosto do freguês. &lt;br&gt;&lt;br&gt;Na segunda página, a dedicatória, antes da propositura comentada acima, simples e concisa como um hai kai (&lt;i&gt;para o meu amor&lt;/i&gt;). Aliás, o livro, quase em toda sua totalidade, é composto por poemas curtos, ora obedecendo a metrificação de um hai kai, ora celebrando o poema minuto, quase um suspiro. Não se pode esquecer que &lt;b&gt;Alice Ruiz&lt;/b&gt;, hoje, é uma das poetas que mais domina a técnica de hai kais no Brasil, fato que a levou a receber uma condecoração da comunidade japonesa, sendo ela, na época, a primeira "estrangeira" a receber tal honra. Se não me falha a memória, essa condecoração foi dada pelos préstimos de divulgação dessa forma de poesia, perpetuada por &lt;b&gt;Bashô&lt;/b&gt;, biografado de &lt;b&gt;Leminski&lt;/b&gt; para uma série da editora &lt;b&gt;Brasiliense&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Impossível ressaltar um só aspecto do livro. Nele, &lt;b&gt;Alice&lt;/b&gt; mostra sua plenitude como mulher (em poemas como "&lt;i&gt;a gente é só amigo/e de repente/eu bem podia/ser essa mosca/perto do teu umbigo&lt;/i&gt;") e como poeta ("&lt;i&gt;poema/meu igual/vão dizer/é experimental&lt;/i&gt;"). Ou quando ela diz das duas coisas como no trecho "&lt;i&gt;se eu não fosse poeta/você entraria em mim/para ficar solto/em algum lugar/da lembrança/em vez disso/nada digo/e você fica preso/dentro do meu verso&lt;/i&gt;").&lt;br&gt;&lt;br&gt;Nesses últimos tempos, até por morar em &lt;b&gt;Curitiba&lt;/b&gt;, a poesia de &lt;b&gt;Alice Ruiz&lt;/b&gt; está confinada às músicas que escreve em parceria com os nomes da MPB. A melhor delas, sem dúvida, é &lt;b&gt;Socorro&lt;/b&gt;, feita em parceria com &lt;b&gt;Arnaldo Antunes&lt;/b&gt; e regravada por &lt;b&gt;Gal Costa&lt;/b&gt; e a falecida &lt;b&gt;Cássia Eller&lt;/b&gt; - &lt;i&gt;Socorro, não estou sentindo nada/ Nem medo, nem calor, nem fogo,/ Não vai dar mais pra chorar/ Nem pra rir./ Socorro, alguma alma, mesmo que penada,/ Me empreste suas penas/ Já não sinto amor nem dor já não sinto nada./ Socorro, alguém me dê um coração,/ Que esse já não bate nem apanha,/ Por favor, uma emoção pequena,/ Qualquer coisa./ Qualquer coisa que se sinta./ Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva./Socorro, alguma rua que me dê sentido,/Em qualquer cruzament,/ Acostamento,/Encruzilhada./ Socorro eu já não sinto nada.&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Quem conseguir achar - e consequentemente comprar -  &lt;b&gt;Paixão Xama Paixão&lt;/b&gt; pode se considerar um privilegiado. Esse é um pequeno grande livro que alegra a todos os leitores. É um favo de mel para adoçar a poesia brasileira, infelizmente condenada aos poetas do passado, já que as perspectivas de uma poesia brasileira (da minha geração) estão cada vez mais reduzidas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93772662?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93772662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93772662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_05_01_archive.html#93772662' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93772632</id><published>2003-05-04T22:31:00.000-03:00</published><updated>2003-05-06T02:26:50.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.submarino.com.br/images/books/cover/160870.jpg"&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Parque Industrial&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Patrícia Galvão (Pagu)&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Mercado Aberto/EDUFSCar&lt;/b&gt;, 1994 (ano da edição), &lt;b&gt;PoA/RS &amp; SP&lt;/b&gt;.&lt;p align=justify&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;O livro, segundo informa a nota do Editor, teve sua primeira edição no ano de 1933.&lt;br&gt;&lt;br&gt; Na apresentação feita pelo professor &lt;b&gt;Flavio Loureiro Chaves&lt;/b&gt; há uma exposição sintética e de muita utilidade sobre os romances urbanos do período conhecido como Regionalismo (1ª fase, 1930-45), focalizando, principalmente, &lt;b&gt;Parque Industrial&lt;/b&gt;. Por outro lado,  no prefácio, escrito por &lt;b&gt;Geraldo Galvão Ferraz&lt;/b&gt;, filho da autora, temos dados relevantes sobre a figura de &lt;b&gt;Pagu&lt;/b&gt;, um nome muito forte do Modernismo.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Das informações dispostas no prefácio temos que nos valer de duas para começar a entender &lt;b&gt;Parque Industrial&lt;/b&gt;. Ao lançar o livro em 1933, &lt;b&gt;Pagu&lt;/b&gt; teve de se esconder sob um pseudônimo - &lt;b&gt;Mara Lobo&lt;/b&gt; - por causa do Partido Comunista. Isso mesmo, ela como militante política, não pôde publicar um livro que, como o título denuncia, falava do operariado. Além disso, o lançamento do livro foi custeado pela autora. Outra informação, de menor importância para descrever o livro, é sobre a sua participação na Semana da Arte Moderna. Participação que não houve pois tinha somente 12 anos quando esta se realizou.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Sobre o livro? Bom, para quem está no ano de 2003, ou seja, 70 anos após o lançamento do livro, o tema não soa como novo. A exploração da burguesia sobre o proletariado diminuiu um pouco no passar dos anos, mas a necessidade cria a exploração e, atualmente, estamos vivendo um período semelhante àquele, com o proletariado trabalhando de segunda a segunda para enriquecer o seu patrão.&lt;br&gt;&lt;br&gt;No que diz respeito à técnica, &lt;b&gt;Pagu&lt;/b&gt; se mostra inventiva, pois não se concentra em nenhuma história. Ela vai contando várias histórias ao mesmo tempo. Alguns personagens vão e vêm. Como efeito de comparação, pode-se dizer que todos os personagens são lentes de um caleidoscópio. A cada capítulo, a combinação deles, nos dá uma nova história, trazendo um painel da sociedade paulistana dos anos 30. &lt;br&gt;&lt;br&gt;Considerando época e contexto, &lt;b&gt;Parque Industrial&lt;/b&gt; é um livro arrojado e impressionante. Com certeza, &lt;b&gt;Pagu&lt;/b&gt; causou muita dor de cabeça aos que mandavam no Brasil. Já no começo, ela define a burguesia. (&lt;i&gt;A burguesia tem sempre filhos legítimos. Mesmo que as esposas virtuosas sejam adúlteras comuns&lt;/i&gt;). Aliando descrições cruas da burguesia com palavrões, uma maneira de expressão pouco usada na época, há um resultado interessante.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Há, contudo,  pequenos erros de grafia das palavras, como "seus criados da &lt;i&gt;impresa&lt;/i&gt;" na página  65. Mas nem eles apagam o brilho da história&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Parque Industrial&lt;/b&gt; é um livro que merece ser lido com atenção, até por ser um livro curto (104 páginas). Atenção porque é uma das primeiras vezes em que uma escritora (só o fato de ser mulher, publicando nos anos 30, merece atenção especial) conta uma história das ruas, isso é, o que acontece nas ruas da cidade grande, muito além dos bairros finos, sem medo de represálias. Se o livro tivesse que ser sintetizado a um adjetivo, esse seria corajoso, que, com as devidas adaptações, definiria uma mulher muito além da sua época, como foi &lt;b&gt;Pagu&lt;/b&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93772632?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93772632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93772632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_05_01_archive.html#93772632' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93487333</id><published>2003-04-29T17:49:00.000-03:00</published><updated>2003-04-29T17:50:36.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;TEMAS PERTINENTES DA LITERATURA BRASILEIRA&lt;/b&gt;&lt;/center&gt;&lt;p align=justify&gt;"&lt;i&gt;A literatura brasileira está fora do circuito internacional&lt;/i&gt;"&lt;br&gt;&lt;br&gt;Principal tradutor de brasileiros para espanhol diz que aceitação é difícil&lt;br&gt;Cristiane Costa&lt;br&gt;Editora do IDÉIAS&lt;br&gt;&lt;br&gt;Tradutor de cerca de 150 livros, em oito línguas diferentes, o espanhol Basilio Losada mal chegou ao Rio e quase foi assaltado, quando o hotel em que se hospedava, em Ipanema, foi invadido por bandidos. Mas nem por isso o tradutor que introduziu a literatura brasileira e portuguesa contemporâneas na Espanha, nos anos 50, perdeu uma gota do amor que sente pelo país. Catedrático aposentado de Literatura Galego-Portuguesa na Universidade de Barcelona, Losada traduziu mais de 60 obras de brasileiros para o espanhol. De Jorge Amado (a obra quase toda) a Rubem Fonseca, passando por Machado de Assis, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles, o rol de autores e amigos que o tradutor tem em seu portfólio é impressionante. Na palestra que proferiu na quinta-feira, na ABL, Losada disse que a literatura brasileira está entre as quatro grandes narrativas do século 20. ''Mas, infelizmente, mantém-se fora dos circuitos editoriais, que, muitas vezes, preferem editar narrativas de segunda linha, como a francesa, presa a velhos temas e novas técnicas'', comparou. No dia seguinte, Basilio Losada foi a estrela do 1º Encontro de Tradutores de Espanhol e Português, no Instituto Cervantes do Rio. O curioso é que, até os 6 anos de idade, o renomado tradutor não sabia falar nem espanhol. Só galego, uma variante que está na origem do português.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Como o senhor introduziu a literatura brasileira na Espanha?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Fui diretor de duas editoras, em que publiquei muita literatura brasileira. Mas, antes disso, ia de editora em editora, com um livro brasileiro ou português debaixo do braço, oferecendo-me para traduzir. Muitas vezes diziam: isso não nos interessa. Mesmo hoje, quando falo de Machado de Assis, escuto que o que os estudantes querem é ouvir sobre Paulo Coelho. É muito difícil para a política cultural de um país superar essas barreiras.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Mas ter um escritor internacionalmente conhecido como Paulo Coelho não acabaria ajudando a chamar atenção para a literatura brasileira?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Na Europa, há uma fixação por estabelecer um autor para cada literatura. A portuguesa, por exemplo, concentra-se em Pessoa e Saramago. Acaba acontecendo que um único nome pode ocultar toda uma literatura.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Por que o desinteresse por outros autores?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt; &lt;i&gt;A literatura brasileira está entre as quatro maiores do mundo. Mas, infelizmente, ela está fora dos circuitos editoriais, que, muitas vezes, preferem editar narrativas de segunda linha, como a francesa, presa a velhos temas e obcecada por questões técnicas&lt;/i&gt;. Esquecendo que, se essa experimentação não tem justificativa ou objetivo, gera uma literatura chatíssima, que é uma verdadeira agressão ao leitor, puro exercício de exibição. Hoje, qualquer romancista inglês de segundo time - e se for de terceira categoria mais ainda - tem grandes chances de ser publicado em espanhol. Enquanto isso, escritores brasileiros de primeira linha são relegados. Os grandes circuitos são determinados pela hegemonia econômica, política e cultural dos países, não pela qualidade de seus autores.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Como se poderia integrar a literatura brasileira no circuito editorial internacional?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Deveria-se começar pelas universidades. Em toda a Europa, com exceção de Roma e Barcelona, não há leitores universitários de origem brasileira. Apenas portugueses, que defendem sua língua e literatura canônica. No ano 2000, tínhamos em Barcelona 1.300 alunos seguindo cursos sobre a narrativa brasileira.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;A língua é um empecilho?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Vocês têm uma língua em ebulição. O espanhol de hoje me parece rígido, incapaz de manifestar emoções profundas com uma perspectiva nova. A grande literatura espanhola não se faz hoje na Espanha e sim nos países latino-americanos, onde se trata a língua com um espírito libertário.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;O que faria da literatura brasileira algo tão especial?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Estou convencido de que seu principal valor está na sua oralidade. Percebi isso lendo Guimarães Rosa. Toda grande literatura é uma literatura regional. E todo grande escritor é alguém que tem um mundo próprio e uma linguagem própria capaz de expressá-lo. Ler a literatura brasileira é uma permanente descoberta. Tenho o orgulho de haver transmitido meu amor por este país e por esta variante lingüística a minha filha, que é diretora do Departamento de Língua Portuguesa da Universidade de Barcelona e prepara-se para publicar toda a obra de Clarice Lispector na Espanha.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Mas a oralidade também pode dificultar a tradução, não?&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Certamente, quanto mais uma literatura cultiva a oralidade, mais difícil de traduzir. Guimarães Rosa é intraduzível. A tradução que temos dele na Espanha é boa, diria que a melhor possível, mas nunca será perfeita.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Publicado no JORNAL DO BRASIL, 29/MAR/2003&lt;br&gt;Colaboração:&lt;b&gt;Deonísio da Silva&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93487333?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93487333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93487333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#93487333' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93360056</id><published>2003-04-27T18:37:00.000-03:00</published><updated>2003-04-27T18:37:46.066-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.submarino.com.br/images/books/cover/51801.jpg"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;b&gt;Pomba Enamorada ou Uma história de amor e outros contos escolhidos&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Lygia Fagundes Telles&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;L&amp;PM&lt;/b&gt;, 2000, &lt;b&gt;Porto Alegre, RS&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Tecer algum tipo de comentário sobre essa lembrança afetuosa de &lt;b&gt;Lygia Fagundes Telles&lt;/b&gt; é uma tarefa árdua e ao mesmo tempo muito prazerosa.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Árdua porque são contos escolhidos. Quem fez a seleção foi a professora de Literatura da &lt;b&gt;Universidade Federal do Rio Grande do Sul&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Léa Masina&lt;/b&gt;. Infelizmente, em sua apresentação, a professora não deixa claro quais foram os critérios por ela adotados. Via de regra, os critérios utilizados para qualquer seleção de textos para a organização de antologias desse porte são orientados mais pelas preferências pessoais do organizador do que a síntese da obra do autor (como se isso fosse possível no caso de &lt;b&gt;Lygia&lt;/b&gt;).&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mesmo levando em conta a hipótese do livro ter sido concebido pelo gosto pessoal de &lt;b&gt;Léa Masina&lt;/b&gt;, não há nenhuma falha no material selecionado. Todos os dezesseis contos são recortes de um cotidiano, feito por uma pessoa que se aproxima mais do tentar entender o ser humano do que do próprio acontecimento, como, por exemplo, as histórias de &lt;i&gt;O menino&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Pomba Enamorada ou Uma História de Amor&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Vida de Passarinho&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Há, também, &lt;i&gt;Venha ver o pôr-do-sol&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;As pérolas&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;As formigas&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Antes do baile verde&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;A estrutura da bolha de sabão&lt;/i&gt;, dentre várias outras histórias que comprovam a refinação e o domínio técnico da escritora.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Pode-se levar em conta a possibilidade de que ainda faltem alguns contos primorosos de &lt;b&gt;Lygia Fagundes Telles&lt;/b&gt;. A editora &lt;b&gt;Global&lt;/b&gt; lançou anteriormente uma seleção dos melhores contos dela. Infelizmente não tenho maiores dados a respeito dos melhores contos publicados pela &lt;b&gt;Global&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A edição feita pela &lt;b&gt;L&amp;PM&lt;/b&gt; é uma versão de bolso, chamada &lt;i&gt;L&amp;PM pocket&lt;/i&gt;, por onde já saíram mais de 300 livros. Os grandes atrativos dessa coleção são, basicamente, dois: o formato, que possibilita levar o livro para todos os lados, podendo ser a maior companhia de alguém em um momento de solidão, e o preço acessível. A capa de &lt;i&gt;Pomba Enamorada...&lt;/i&gt; traz a imagem de &lt;u&gt;Pomba azul com flores&lt;/u&gt;, de &lt;b&gt;Pablo Picasso&lt;/b&gt;, mostrando preocupação com a apresentação dos livros da série.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Agora, falar de &lt;b&gt;Lygia Fagundes Telles&lt;/b&gt;, uma senhora que fez aniversário em 19 de abril - bem poderia ser a madrinha do &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt;, cujo primeiro post é de 20 de abril -  que começou a escrever, segundo ela, desde a idade da pedra lascada e que se tivesse que escolher as cores de sua bandeira, escolheria o vermelho ("&lt;i&gt;a cor da paixão, vermelho da vida&lt;/i&gt;") e o verde ("&lt;i&gt;Eu gosto muito do verde que é a única cor que amadurece&lt;/i&gt;") é um prazer. Não o prazer de falar de uma escritora que é reconhecida ainda em vida por crítica e público. É um prazer falar da &lt;b&gt;Lygia&lt;/b&gt; pelas boas recordações que a história desse livro que comento me traz. Pena esse ser um blog de comentários, não de histórias...&lt;br&gt;&lt;br&gt;Mas o que uma imortal da Literatura Brasileira fez por mim, com certeza, muitos mortais não fariam...&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93360056?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93360056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93360056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#93360056' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93359769</id><published>2003-04-27T18:30:00.000-03:00</published><updated>2003-04-27T18:33:57.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.submarino.com.br/images/books/cover/47685.jpg"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;b&gt;Olhai os lírios do campo&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt;. &lt;b&gt;Globo&lt;/b&gt;, 1938, &lt;b&gt;PoA, RS&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt; é um caso raro de lucidez e consciência quanto a sua produção literária. Esse &lt;b&gt;Olhai os lírios do campo&lt;/b&gt; é a grande prova disso. Em uma edição mais refinada, datada de 1953, com comentários do próprio a respeito de cada livro publicado, houve uma terrível confissão: "&lt;i&gt;Com a publicação de 'Olhai os Lírios do Campo', operou-se uma mudança considerável em minha vida. O romance obteve tão grande sucesso de livraria, que se esgotaram dele várias edições em poucos meses, deixando editores e escritor igualmente satisfeitos e perplexos. (...) Confesso, entretanto, que não tenho muita estima por este romance. Acho-o hoje um tanto falso e exageradamente sentimental. Sua popularidade às vezes chega a me deixar constrangido&lt;/i&gt;".&lt;br&gt;A história é dividida em duas partes.  A primeira narrada na grande maioria das partes na forma de flash-back (com a retomada da história em alguns momentos) e a segunda, conseqüência do desenrolar da primeira cena, que abre o livro. Como o próprio &lt;b&gt;Erico&lt;/b&gt; reconhece, a melhor parte do livro é a primeira. O drama de &lt;b&gt;Eugênio&lt;/b&gt; ao escolher caminhos não tão convencionais (para a época) é denso, mas a solução do romancista para isso não é tão usual.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Não é mistério as razões que fizeram &lt;b&gt;Olhai os lírios do Campo&lt;/b&gt; cair no gosto popular. É uma história urbana que atraiu a atenção principalmente da classe média; é uma história de amor (na verdade são, ao menos, três histórias); muita gente encontra alguma coisa de si em &lt;b&gt;Eugênio&lt;/b&gt; ou em &lt;b&gt;Olívia&lt;/b&gt;; as cartas de &lt;b&gt;Olívia&lt;/b&gt; que são de uma esperança fora do comum, dão um novo alento aos leitores. Além disso, o percurso de &lt;b&gt;Eugênio&lt;/b&gt; e as suas indagações são universais e já passaram, se é que não passam, pela cabeça de todos, adolescentes ou não.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Por ser popular, a literatura de &lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt;, a princípio, foi tratada com desprezo pelos acadêmicos. Depois de &lt;b&gt;O tempo e o vento&lt;/b&gt;, a trilogia épica que conta toda a história do Rio Grande do Sul, as coisas mudaram, a ponto de até hoje, toda a obra do escritor, falecido em 1975, ser sucesso de crítica e público.Reler esse livro para o curso de Literatura Brasileira 6, trouxe-me algumas novas sensações e novos modos de ver como &lt;b&gt;Erico&lt;/b&gt; abordou a classe média (não mediana) porto-alegrense. No aspecto histórico é interessante observar que os romancistas nordestinos estavam mais voltados para o campo, enquanto os romancistas sulistas estavam voltados para as cidades, em visível processo de expansão.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Algum tempo atrás ouvi o absurdo de que não era necessário ler &lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt; para saber que era bom. Ler &lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt; é fundamental para vermos as inquietações do homem moderno, em um período de grande transição, como foram todas as décadas, de 30 até 70.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Não é possível indicar apenas um livro de &lt;b&gt;Erico Verissimo&lt;/b&gt;. Pode-se começar com qualquer um, exceto &lt;b&gt;Fantoches&lt;/b&gt;, muito ruim. Depois de dois ou três romances lidos, mais a leitura do primeiro volume de &lt;b&gt;Solo de Clarineta&lt;/b&gt;, vocês podem tirar a conclusão se &lt;b&gt;Erico&lt;/b&gt; é o pai do &lt;b&gt;Luís Fernando&lt;/b&gt; ou o &lt;b&gt;Luís Fernando&lt;/b&gt; é o filho do &lt;b&gt;Erico&lt;/b&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93359769?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93359769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93359769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#93359769' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93359740</id><published>2003-04-27T18:29:00.000-03:00</published><updated>2004-01-12T16:54:50.420-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img src="http://www.sodiler.com.br/capas/semcapa.gif"&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;b&gt;não fosse isso/e era menos/não fosse tanto/e era quase&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Paulo Leminski&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;ZAP&lt;/b&gt;, 1980, &lt;b&gt;Curitiba, PR&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Se tivesse que escolher um poema apenas para sintetizar esse livro, que é um dos clássicos de &lt;b&gt;Leminski&lt;/b&gt;, escolheria esse:&lt;Br&gt;&lt;br&gt;"&lt;i&gt;cansei da frase polida/por anjos da cara pálida/palmeiras batendo palmas/ao passarem paradas/agora eu quero a pedrada/chuva de pedras palavras/distribuindo pauladas&lt;/i&gt;"&lt;br&gt;&lt;br&gt;E esse livro, realmente, é uma paulada. Totalmente inovador porque ele nunca quis ser o freguês distinto ("&lt;i&gt;obrigado&lt;/i&gt;","&lt;i&gt;hasta la vista&lt;/i&gt;"). Desde a concepção visual do livro, que nos traz a impressão de estarmos folheando um apanhado de poemas recém-datilografados, que irão para a qualquer hora nas mãos de um editor, quanto nas próprias poesias. &lt;br&gt;&lt;br&gt;Experimentalista por natureza, &lt;b&gt;Paulo Leminski&lt;/b&gt; viveu seus 45 anos perigosamente. Durante toda a sua vida ele foi tudo. Nesses 45 anos ele foi tudo. Monge, poeta, estudante de Direito, estudante de Letras, judoca, ensaísta, tradutor, biógrafo... Impossível dar uma cara a uma pessoa tão multifacetada, que estava sempre querendo aprender ("&lt;i&gt;soubesse que era assim/não tinha nascido/e nunca teria sabido/ninguém nasce sabendoi/até que eu sou meio esquecido/mas disso eu sempre lembro&lt;/i&gt;").&lt;br&gt;&lt;br&gt;Porém o seu maior feito foi ter encontrado alguém que dividiu e deu um gás a toda essa efervescência dele: trata-se da poeta (ou poetisa, a escolha é de vocês) &lt;b&gt;Alice Ruiz&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Voltando ao &lt;i&gt;não fosse isso...&lt;/i&gt;. Vale lembrar que, no total, o livro tem 80 poemas. Alguns são poemas-minuto; outros hai kais. Mas todos são pequenos grandes desabafos (como esse: "&lt;i&gt;a vida é as vacas/que você põe no rio/para atrair as piranhas/enquanto a boiada passa&lt;/i&gt;"). &lt;b&gt;Leminski&lt;/b&gt; se destacou também na prosa, concisa e direta, chegando ao ponto de sintetizar algumas passagens em apenas uma oração. Além de uma história infanto-juvenil singular (&lt;b&gt;Guerra dentro da gente&lt;/b&gt;), ele escreveu 4 biografias para a editora &lt;b&gt;Brasiliense&lt;/b&gt; - Bashô, Jesus, Cruz e Souza e Trótski. Infelizmente essas biografias só podem ser encontradas em sebo (se forem encontradas). Porém, para a nossa sorte, após a sua morte foi lançado o livro &lt;b&gt;Vida&lt;/b&gt;, onde estão todas as biografias reunidas.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Ele se foi, mas a sua poesia está aí, por todos os cantos - da internet ou da vida. Há sempre um verso de &lt;b&gt;Paulo Leminski&lt;/b&gt; que caia como uma luva para gente, em uma tarde ensolarada de domingo ou em uma tarde cinzenta de segunda. Só ele resumiu-se:&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;center&gt;"&lt;i&gt;apagar-me&lt;br&gt;diluir-me&lt;br&gt;desmanchar-se&lt;br&gt;até que depois&lt;br&gt;de mim&lt;br&gt;de nós&lt;br&gt;de tudo&lt;br&gt;não reste mais&lt;br&gt;que o charme&lt;/i&gt;"&lt;/center&gt;O melhor de &lt;b&gt;Leminski&lt;/b&gt; não está em nenhuma antologia; seu supra-sumo está nesse &lt;i&gt;se não fosse isso...&lt;/i&gt;, tão antigo e tão esquecido pelas grandes editoras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93359740?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93359740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93359740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#93359740' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-93359534</id><published>2003-04-27T18:25:00.000-03:00</published><updated>2003-04-27T18:37:06.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;center&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;A&lt;/u&gt; crítica e &lt;u&gt;o&lt;/u&gt; comentário&lt;/center&gt;&lt;/b&gt;&lt;p align=justify&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Já na primeira semana do &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt; recebi manifestações carinhosas sobre esse blog e sua idéia. Queria agradecer de pronto a todos que arrumaram um tempo para estar aqui e que começaram a compartilhar várias experiências que o espaço pode nos proporcionar. A casa também é de vocês.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Acredito ser necessário falar de um tema agora, para que façamos uma correção de rumos desde cedo, para que a planta que está sendo germinada nasça firme e forte. Um grande amigo disse a palavra-chave para o início dessa correção de rumos. Trata-se da palavra crítica.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Em um dicionário chulo, encontro a seguinte definição para a crítica: "&lt;i&gt;Arte ou faculdade de julgar obras literárias, artísticas, etc. (...) A ação de criticar, visando ao aperfeiçoamento da obra (crítica construtiva) ou à depreciação do seu autor (crítica destrutiva)&lt;/i&gt;".&lt;br&gt;&lt;br&gt;Em nenhum momento estou me propondo, aqui, a fazer alguma crítica aos livros que leio. A palavra crítica traz consigo uma aura negativa, causando a impressão de que ao se criticar algo ou alguém estamos fazendo o papel de algozes de obra ou pessoa. Como já disse, quero dividir boas experiências literárias com todos e não ficar descarregando aqui as minhas paranóias e patologias literárias. Para isso eu tenho o meu outro blog.&lt;br&gt;&lt;br&gt;O que pretendo é apenas fazer comentário, definido assim, no mesmo dicionário chulo: "&lt;i&gt;Série de observações esclarecedoras...&lt;/i&gt;". O resto da definição não me interessa a ponto de divulgá-lo.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Houve, na &lt;b&gt;USP&lt;/b&gt;, uma tese que defendia a idéia de que o dicionário &lt;b&gt;Aurélio&lt;/b&gt; - o nosso maior, melhor e mais completo, até nas edições de bolso, no período pré-&lt;b&gt;Houaiss&lt;/b&gt; - era machista. Se formos analisar, essa aplicação também se aplica no meu pobre dicionário de bolso, já definido como chulo. A crítica, ou seja, a carga negativa, é um sinônimo feminino, enquanto o comentário, um ato menos tendencioso, é um sinônimo masculino.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Pois bem, está dito. desconsiderando o sexismo das palavras, o &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt; fará apenas comentários.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Nota&lt;/b&gt;: O dicionário chulo é o &lt;i&gt;Minidicionário &lt;u&gt;Ediouro&lt;/u&gt; da Língua Portuguesa&lt;/i&gt;, de &lt;b&gt;Sergio Ximenes&lt;/b&gt;. Por que é chulo? Porque seu uso é recomendado para estudantes de oitava série.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-93359534?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93359534'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/93359534'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#93359534' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-92917632</id><published>2003-04-20T01:17:00.000-03:00</published><updated>2003-04-20T01:40:09.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p align=justify&gt;&lt;img src="http://www.escrituras.com.br/livros/narrat_do_coracao.jpg"&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Narrativas do Coração&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Soila Schreiber&lt;/b&gt;, 2002, &lt;b&gt;Escrituras&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;SP&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Escrever poesia no Brasil é um caso complicado. Temos grandes poetas, como &lt;b&gt;Carlos Drummond de Andrade&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Vinicius de Moraes&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Manuel Bandeira&lt;/b&gt; &lt;i&gt;et alits&lt;/i&gt;. Os nossos poetas menores não são menos do que, por exemplo, um &lt;b&gt;Mario Quintana&lt;/b&gt;, um &lt;b&gt;Paulo Leminski&lt;/b&gt;... Para nossa alegria ou tristeza, nossos poetas menores são estrelas de primeira grandeza.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Cria-se, assim,  um quadro desfavorável à nova poesia, pois não está se considerando os poetas de língua portuguesa, cujo exemplo maior poderia estar tanto em &lt;b&gt;Camões&lt;/b&gt; (lírico ou épico; a escolha fica a gosto do freguês) quanto em &lt;b&gt;Fernando Pessoa&lt;/b&gt; (seja lá quantas pessoas ele fosse). Estamos em aspectos nacionais somente.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Ultimamente andava ávido pela nova poesia brasileira. Não que estivesse cansado dos poetas consagrados, mas queria algo novo. A busca, durante muito tempo, foi em vão. Encontrei - muito pouca - coisa boa, fato que me deixou insatisfeito. Quando já estava prestes a desistir, eis que me aparece um sinal de vida inteligente na poesia rasileira: &lt;i&gt;Narrativas do Coração&lt;/i&gt;, de &lt;b&gt;Soila Schreiber&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Os amigos, logicamente, deram uma ajuda ao livro de lançamento da poeta (ou seria poetisa?). As orelhas foram escritas por &lt;b&gt;Frei Betto&lt;/b&gt;(cujo nome está escrito errado no site da editora), a introdução ficou a cargo de &lt;b&gt;Carlos Nejar&lt;/b&gt; e o posfácio por conta de &lt;b&gt;John Lyons&lt;/b&gt;. Tudo plenamente justificado por ser o primeiro. No fundo, o livro não necessita disso.&lt;br&gt;&lt;br&gt;É um livro simples, como deveriam ser todos os livros de poesia. Os poemas que fazem menção a &lt;b&gt;Roberto Drummond&lt;/b&gt; (&lt;u&gt;em breve aqui no &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt;&lt;/u&gt;), falecido durante a Copa de 2002 são de rara beleza. Um exemplo, retirado de &lt;i&gt;Outro dia&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;Por que saiu assim antes do jogo decisivo?/Nem pude mandar flores./E nem sei qual foi seu último olhar./sempre achei que haveria outro dia&lt;/i&gt;); há também uma mistura entre sentimentos e lembranças. O olhar adolescente, o olhar sensual, o olhar de infância. Enfim, um pouco de tudo, criando o todo.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Quem conhece &lt;b&gt;Soila Schreiber&lt;/b&gt; não tem muita dificuldade para montar o seu mapa de passos. Tudo é muito claro. Para os outros leitores - que não a conhecem - também não haverá tanta dificuldade para saber do que e de quem ela está falando. Sua poesia é límpida, direta e cativante. Até mesmo em um grito de desabafo, como o que fecha o livro (&lt;i&gt;Xeque-mate na ladainha para o rei&lt;/i&gt;) que sintetiza bem o turbulento mundo em uma fogueira de vaidades, normalmente conhecido como Departamento de Letras, ela se exprime de maneira sintética e direta.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Por que um livro de poesias chamaria &lt;i&gt;Narrativas do Coração&lt;/i&gt;? Porque, ao mesmo tempo, é um livro de poesias e um livro de histórias. As poesias de &lt;b&gt;Soila&lt;/b&gt; são pequenas histórias, que, na parte estrutural, relembram muito um curitibano, o tal do Vampiro de Curitiba (&lt;u&gt;outro que estará em breve por aqui&lt;/u&gt;). Curitiba, a cidade que faz parte da vida da autora. Seria a cidade que rima com &lt;i&gt;vou lá&lt;/i&gt;?&lt;br&gt;&lt;br&gt;Encare as &lt;i&gt;Narrativas do Coração&lt;/i&gt; como poesia como história. Aqui está um livro de poesias que não precisa ser rotulado. Merece e pede leitura atenta e paciente. Ele segue o seu caminho por si, como um pequeno barco descendo o rio...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-92917632?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/92917632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/92917632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92917632' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-92917458</id><published>2003-04-20T01:12:00.001-03:00</published><updated>2003-04-25T18:37:17.000-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p align=justify&gt;&lt;img src="http://www.tatianawise.hpg.com.br//coreografia.gif"&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Coreografia dos Danados&lt;/b&gt;, de &lt;b&gt;Whisner Fraga&lt;/b&gt;, 2001, &lt;b&gt;Edições Galo Branco&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;RJ&lt;/b&gt;.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;b&gt;Whisner Fraga&lt;/b&gt; seria apenas mais um doutorando em Engenharia Mecânica na USP São Carlos se não tivesse consciência da importância de não render-se e lutar com a arma mais letal inventada pelo homem: a palavra.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Por mistérios ainda sem resposta, ele é mais um engenheiro que tem um pé na Literatura. Escritor de prosa coerente e vigorosa, tem como principais marcas a coragem de narrar sob um ângulo que a sociedade não consegue esconder, e a inventividade, isto é, a busca de novas técnicas narrativas para contar as suas histórias. &lt;i&gt;Coreografia dos Danados&lt;/i&gt;, seu terceiro livro, e ganhador do Prêmio Edições Galo Branco, é a prova disso, com boas surpresas do início ao fim.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Quem escreve o prefácio do livro é &lt;b&gt;Deonísio da Silva&lt;/b&gt;, que foi seu professor nos cursos de Literatura Brasileira na &lt;b&gt;UFSCar&lt;/b&gt; e que é igualmente um escritor (&lt;u&gt;em breve no &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt;&lt;/u&gt;). Logo no prefácio, &lt;b&gt;Deonísio&lt;/b&gt; comenta sobre o grande número de escritores que surge em nosso país e paradoxalmente a falta de um mercado leitor para tantos novos talentos. &lt;b&gt;Whisner&lt;/b&gt;, porém, em mais um sinal de lucidez, não tem a ilusão de poder viver do que escreve. É fato que o mercado editorial brasileiro ainda não está aberto ao novo, principalmente a um novo com essa cara, como é o caso de &lt;i&gt;Coreografia dos Danados&lt;/i&gt;. O mercado editorial brasileiro é forte mas não está independente na hora de decidir. Talvez esteja aqui a resposta de por que &lt;b&gt;Paulo Coelho&lt;/b&gt; vende milhões enquanto outros escritores não conseguem nem editora para publicar seus livros. E vale lembrar que &lt;b&gt;Paulo Coelho&lt;/b&gt; não ganhou nenhum concurso literário...Ainda no prefácio, &lt;b&gt;Deonísio&lt;/b&gt; indica &lt;i&gt;Vila Pureza&lt;/i&gt; (que conta a história de uma universitária que é garota de programa) como o marco inicial para aquele que infelizmente não pode fazer uma leitura linear do livro. &lt;i&gt;Vila Pureza&lt;/i&gt;, de fato, é o quadro onde as cores trazem mais reflexos de realidade do que no restante do livro.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Contudo, &lt;i&gt;Coreografia...&lt;/i&gt; é mais que uma pintura do cotidiano. Se quiséssemos isso, bastaria comprar qualquer jornal e nos embriagaríamos dessa tal realidade propalada. O livro de &lt;b&gt;Whisner&lt;/b&gt; traz um panorama geral do contexto ao qual ele está inserido. A começar pela epígrafe de &lt;b&gt;Samuel Rawet&lt;/b&gt; (&lt;i&gt;Devo seguir meu caminho como se nada pudesse/perturbar o ritmo dos passos ou a pulsação no peito./ Devo me habituar a não permitir/que a marca de infinitas sugestões/à minha direita ou esquerda me sirva de empecilho,/ou me fira com a aliciante tentação de uma solidariedade&lt;/i&gt;) e terminando com a última frase de &lt;i&gt;Não é o fim&lt;/i&gt;, o último conto do livro, (&lt;i&gt;...como se o infinito tivesse fim.&lt;/i&gt;), encontra-se traços de profunda sensibilidade, leves pitadas de sarcasmo e muita, mas muita originalidade.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Ao contrário do que diz o prefácio, indico a leitura da obra como ela está concebida, conto a conto, do começo ao fim. Há um fio quase invisível que une todas as histórias. O livro foi todo tramado para que o leitor começasse o livro na primeira e terminasse na última frase, cabendo a ele, após a leitura, a reflexão. Ler o livro de forma aleatória, seria o mesmo que ir a uma exposição de quadros e não seguir a ordem proposta. De certa forma faria efeito, mas não tanto quanto pretendido.&lt;br&gt;&lt;br&gt;O conto &lt;i&gt;A meia cidade de um homem (ou meio homem de algum canto)&lt;/i&gt;, saiu na revista &lt;b&gt;Cult&lt;/b&gt;, com algumas modificações - prova de que &lt;b&gt;Whisner&lt;/b&gt; não se acomodou e está em constante busca da sua forma única de expressão - se eu não me engano, no mês de outubro. Esse mesmo conto, mais &lt;i&gt;O Feitiço de Áquila&lt;/i&gt;, saíram em um site feito para a comunidade brasileira nos Estados Unidos (em português e em inglês). &lt;i&gt;Vila América&lt;/i&gt; foi representante de São Carlos, em 2000, na categoria conto em um concurso promovido pelo Governo de São Paulo, cujo nome é mapa cultural.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Uma última coisa: não se prendam ao título do livro. Os danados não são tão danados assim. São personagens baseados em pessoas comuns, que estão em busca de algo. &lt;b&gt;Whisner Fraga&lt;/b&gt; não é guia de cegos; ele apenas aponta os caminhos, sem influenciar no destino de quem os segue. Danados, todos somos. São poucos os que assumem isso. E, em menor número, os que nos desnudam.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-92917458?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/92917458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/92917458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92917458' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5299364.post-92917436</id><published>2003-04-20T01:12:00.000-03:00</published><updated>2003-04-20T01:12:22.530-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Escrever sobre um projeto que ainda não está claramente definido, como é o caso do &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt;, é algo que deve ser executado com muito cuidado.&lt;br&gt;&lt;br&gt;A idéia do &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt; é muito simples: ter um espaço onde possa fazer comentários sobre os livros que li e destacar alguma outra coisa - nos livros ou em comentários do autor -pertinente.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Por mil motivos menos um, aqui vocês encontrarão muita Literatura Brasileira. Principalmente a Literatura Brasileira Contemporânea, que formam, em quase toda sua totalidade, os meus livros de cabeceira. Isso não exclui algumas possibilidades, como a de, por exemplo, destacar alguns autores ou tópicos da literatura de outros países. Posso exemplificar o que foi dito com o nome de um poeta que é atemporal, na minha opinião: &lt;b&gt;Federico García Lorca&lt;/b&gt;. Há outros nomes, que, aos poucos, vão sendo descobertos e/ou descritos.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Falar sobre o que li e, ao mesmo tempo, indicar esses livros será uma tarefa agradável. De um paradoxo surgiu a primeira crise, que inviabilizava o surgimento do &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt;. Terá aqui somente livros que eu gosto? Cheguei a conclusão de que todos os livros lidos tiveram as suas razões, ou seja, de alguma forma aquilo me agradou e me acrescentou algum conhecimento novo. Isso aconteceu quando li &lt;b&gt;Paulo Coelho&lt;/b&gt;, na época em que ele era somente um mago (e eu tinha 14 ou 15 anos). Já os livros que não me agradam, prefiro deixar de lado ou tentar ler em alguma outra oportunidade.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Aliás, posso começar a fazer o que me proponho ao &lt;u&gt;não&lt;/u&gt; indicar um livro: &lt;i&gt;O amor é uma dor feliz&lt;/i&gt;, do &lt;b&gt;Fernando Bonassi&lt;/b&gt;. Você lê o livro com muito sacrifício, de tão maçante que é a história, e pensa que em algum momento ela vai melhorar. Trezentas e poucas páginas depois você descobre que está redondamente enganado, ou melhor, foi enganado do começo ao fim.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Livros para serem lidos serão muito bem-vindos. Se você quiser me enviar o seu, é só entrar em contato pelo e-mail (que está ao lado) e eu digo como você pode fazer o seu livro chegar até as minhas mãos. Indicações de leituras também serão aceitas.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Por enquanto o &lt;i&gt;Livro de Cabeceira&lt;/i&gt; se resume a isso: várias idéias a serem organizadas, o prazer em poder ler e, principalmente, o prazer em poder escrever sobre os livros que me agradaram. O resto é conseqüência.&lt;br&gt;&lt;br&gt;Acredito que estas são as poucas palavras, as essenciais.&lt;br&gt;&lt;br&gt;O resto, com o tempo, vai se revelar...&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5299364-92917436?l=livrodecabeceira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/92917436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5299364/posts/default/92917436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livrodecabeceira.blogspot.com/2003_04_01_archive.html#92917436' title=''/><author><name>Michel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13778732316958188566</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
